"Na escola existe um calendário onde a minha jovem professora de cara de lua cheia marca o dias com um lá

is encarnado.
Na montanha, o tempo mede-se pelos desgostos e pelo trabalho das mulheres.
Nos meses frios, as mulheres escalam a crista da montanha em busca de lenha. tiram a comida dos seus pratos para dar aos filhos pequenos e amordaçam as exigências dos seus estômagos vazios.
Esta é a estação em que as mulheres enterram os filhos que morrem de febre.
Nos meses secos,as mulheres apanham braçadas de estrume e enchem com ele cestos enormes. Depois enformam uma espécie de bolas prensadas que põe a secar ao sol para fazer o precioso carvão para o lume do jantar. E atam trapos em volta dos olhos dos filhos para os protejer da poeira que sopra do leito seco e vazi do rio.
Esta é a estação em que as mulheres enterram os filhos que morrem de tosse convulsa.
Nos meses das chuvas, quando as paredes de argila das suas cabanas começam a degradar-se, as mulheres tapam as frechas com remendos e mantêm o lume aceso para que as sobras da véspera estiquem para o jantar do dia seguinte. Vêem o caudal do rio transformar-se numa fera enfurecida. Tiram sanguessugas dos pés dos filhos e dão-lhes chá para regular os intestinos e prevenir as diarreias.
Esta é a estação em que as mulheres enterram os filhos por não os poderem levar ao médico que fica na outra margem do rio.
Nos meses frescos, cozinham pratos especiais para as festas. Fazem cerveja de arroz para os homens e ouvem-nos a discutir política. Ensinam os ilhos que sobreviveram a ciclo das estações a fazer tinta para o regresso à escola com resina escura e azulada da fava-de-malaca.
Esta é também a estação em que as mulheres ingerem o suco escuro, azulado e tóxico da fava-de-malaca para provocar desmanchos dos bebés que carregam no ventre - que iriam nascer apenas para serem enterrados na estação seguinte."